EE - 08 - MEDITAÇÃO VIII — Da parábola do filho pródigo Orações de terços
Advertência. — Como penúltima das meditações da primeira seção da via purgativa, pareceu-nos muito oportuna a meditação sobre a parábola que Jesus nos propõe do filho pródigo. Esta parábola anima de modo admirável o pecador para que não desespere do perdão, por mais numerosos e graves que sejam os seus pecados, e ao mesmo tempo lhe ensina como deve recorrer ao padre confessor, que está no lugar de Deus, para que o ouça em confissão e o absolva e assim o revista com o manto santo da graça.
Parábola conforme relata São Lucas (Lc 15,11-24): "Um homem tinha dois filhos, dos quais o mais jovem disse a seu pai: Pai, dá-me a parte dos bens que me cabe. E o pai repartiu entre os dois os bens.
Não se passaram muitos dias quando aquele filho mais jovem, recolhendo todas as suas coisas, partiu para um país muito distante, e ali desperdiçou toda a sua fortuna vivendo dissolutamente. Depois que gastou tudo, sobreveio uma grande fome naquela terra e começou a passar necessidade. Por isso, foi servir a um morador daquela região, o qual o enviou à sua fazenda para cuidar dos porcos.
Ali desejava com ansiedade encher o ventre com as bolotas e cascas que comiam os porcos, e ninguém lhas dava. E, caindo em si, disse: Ai, quantos trabalhadores na casa de meu pai têm pão em abundância, enquanto eu estou aqui morrendo de fome! Levantar-me-ei e irei a meu pai e lhe direi: Pai meu, pequei contra o céu e contra ti; já não sou digno de ser chamado teu filho; trata-me como a um dos teus trabalhadores.
Com essa resolução pôs-se a caminho da casa de seu pai. Estando ainda longe, avistou-o seu pai, comoveram-se-lhe as entranhas e, correndo ao seu encontro, lançou-lhe os braços ao pescoço e cobriu-o de beijos. Disse-lhe o filho: Pai meu, pequei contra o céu e contra ti; já não sou digno de ser chamado teu filho.
Mas o pai, em resposta, disse aos seus servos: Depressa, trazei aqui o vestido mais precioso que há em casa e vesti-o; colocai um anel no dedo e calçai-lhe as sandálias; e trazei um novilho cevado, matai-o, comamos e celebremos um banquete, pois este meu filho estava morto e reviveu, estava perdido e foi encontrado."
Oração Preparatória
Meu Deus e meu Senhor, creio firmemente que estais aqui presente.
Vos adoro, meu Deus, com toda a submissão e afeto do meu coração, e humildemente vos peço perdão de todos os meus pecados.
Vos ofereço, Senhor e meu Pai, esta meditação, e espero que me concedais as graças necessárias para realizá-la bem. Para esse mesmo fim, recorro a Vós, Santíssima Virgem, minha Mãe, aos Anjos e Santos, para que intercedais por mim e me alcanceis o que necessito para tirar fruto desta meditação. Amém.
Prelúdio primeiro — Composição de lugar
Imagina que vês um jovem triste e pensativo, queimado pelo sol, com as roupas rasgadas, sentado sobre uma pedra ao pé de uma azinheira, rodeado por uma vara de porcos. Forçado pela fome, ele apanha do chão algumas daquelas bolotas já babadas e pisoteadas por aqueles animais imundos, as quais come entre o mau cheiro e os grunhidos, queixando-se de sua sorte e dizendo: Ai de mim! O que fui em outro tempo e o que sou agora!
Prelúdio segundo — Petição
Deus e Senhor meu, dai-me luz e graça para compreender bem esta parábola, e suplico-Vos que façais de modo que, já que imitei o filho pródigo ao afastar-me de Vós, o imite também ao voltar para pedir-Vos perdão.
Ponto 1
Nesta parábola, o pai representa Deus Nosso Senhor; o filho mais velho, tão humilde, obediente e tão bom, representa um bom cristão que em tudo e por tudo guarda a lei de Deus; e o filho pródigo é a figura mais expressiva de um pecador.
A juventude é a própria causa de sua perdição: como jovem, deixa-se levar por ilusões; pelo amor ao prazer, aos jogos e passeios; busca companheiros amigos das mesmas inclinações; anseia ver e ser visto e, por isso mesmo, vestir-se sempre com elegância.
Como jovem, deixa-se arrastar por suas paixões, especialmente pela impureza, e, em vez de resistir-lhes, ele mesmo as desperta com as conversas que mantém com seus companheiros e amigos. Busca e anda sempre em meio às ocasiões de impureza, de modo que não pecar seria um milagre maior que o daqueles três jovens que foram lançados na fornalha da Babilônia e andavam entre as chamas sem se queimar.
Mas há uma diferença muito grande entre esses e aquele: aqueles não se lançaram, e sim foram lançados por outros; por isso Deus os preservou com um milagre. Este filho pródigo, porém, colocou-se e permaneceu voluntariamente na ocasião, e por isso se perdeu tão miseravelmente.
Como jovem, desejou a independência e fugir da sujeição paterna, apesar de ela lhe ser tão suave e proveitosa; e, além disso, teve a audácia e o atrevimento de pedir a seu pai que lhe desse a porção que lhe correspondia. Que ingratidão! Que maldade!
Afetos
1. De próprio conhecimento. — Alma minha, aqui tens um retrato do que tu fizeste. Entregaste-te aos prazeres e diversões de toda espécie; tu te meteste no meio das chamas das paixões e nelas permaneceste tão incendiada, que por todas as tuas potências e sentidos lanças fogo de impureza com que escandalizas e incendeias os demais.
Teus olhos estão cheios de adultério, como diz São Pedro; tua boca é como um sepulcro aberto, de onde saem palavras torpes, contos e piadas indecentes e cantigas desonestas, com que manchas a puríssima prata da castidade de quantos têm a desgraça de te ouvir. Tuas ações, gestos e vestes, afeminados, revelam o que és.
Esse mesmo vício te faz desejar e procurar a independência de Deus, de teus pais e superiores, convertendo-te em um completo libertino. Tu tens a audácia de pedir a Deus, teu Pai, o que julgas tocar-te segundo tua natureza. Não o pedes: tu o arrebatas e abusas de todo um patrimônio; abusas de tuas potências e sentidos, e de todas as graças naturais, como são a saúde, a beleza, a riqueza e tudo o mais, que não é teu, mas de Deus. Que tens tu que não tenhas recebido?
2. De arrependimento. — Ai de mim, que foi que eu fiz! Que ingratidão! Que injustiça! Oh, que prejuízo causei a mim mesmo!
Ponto 2
O filho pródigo, com o patrimônio que recebeu de seu pai, foi para um país muito distante de sua pátria, onde dissipou tudo o que tinha; veio uma grande fome e ele se alugou a um senhor, que o fez guardar porcos. Aí tens, cristão, descrito nesta parábola pelo próprio Cristo, o que aconteceu contigo.
Pelo pecado te afastaste de Deus, teu Pai "A região longínqua é o esquecimento de Deus" Santo Agostinho.
Tudo dissipaste vivendo luxuriosamente; ficaste nu da graça, como outro Adão e Eva; estás passando uma grande fome espiritual; falta-te o pão da graça de Deus, o pão eucarístico, porque já não comungas; falta-te o pão da leitura dos bons livros e da Palavra divina.
Privado desses santos alimentos, dos quais vive o justo e dos quais tu voluntariamente te afastaste, encontras-te atormentado pela fome; e assim como o corpo, sem comer, não pode viver — e, se não pode comer uma coisa, come outra —, assim também sucede com a alma: se não lhe dão o alimento das virtudes, ela se alimenta de vícios.
O filho pródigo se alugou a um senhor, que o fazia guardar porcos. E tu, alma cristã, que fizeste? Ai! Tu te alugaste, melhor direi, te escravizaste a Satanás, que te faz guardar os porcos imundos dos vícios e pecados, como são a soberba, o orgulho, a cobiça, a cólera, a luxúria, a gula, a inveja, a preguiça, a incredulidade, a indiferença, a irreligião e a impiedade.
Todos esses vícios andam ao teu redor, como os porcos andavam ao redor do filho pródigo; e assim como aquele se alimentava da comida dos porcos que guardava, assim tu te alimentas desses vícios. Mas tens um senhor tão tirano e cruel que não te sacia o bastante nem sequer te deixa encher o ventre dessas imundas bolotas.
Quantas vezes desejas riquezas que não podes alcançar; aspiras a honras que não podes obter; desejas vingar-te e não consegues; anseias por comidas e bebidas requintadas e não as alcanças; procuras roupas de luxo, diversões e prazeres indecentes, e, embora consigas alguns, não os consegues de modo que fiques satisfeito. Sempre ficas com fome. Que miséria!
Ao filho pródigo, a própria fome o fez cair em si. E disse: Aqui eu pereço de fome; então, que farei? Ah! Já sei o que farei: levantar-me-ei e irei a meu pai e lhe direi: Pai, pequei contra o céu e contra ti; já não sou digno de ser chamado teu filho, mas ao menos admite-me como um dos teus últimos criados.
Já vês, alma cristã, a resolução que toma o filho pródigo: essa é a que tu também deves tomar. Pois não vês que aqui pereces de fome? Pois não percebes que os vícios não são o alimento adequado com que deves alimentar-te? Estes podem ocupar-te e entreter-te, mas não te encher nem te satisfazer.
Lembra-te do que eras antes; olha o que são e como vivem os que servem a Deus com fidelidade: andam vestidos com o traje da graça, da virtude e do mérito; alimentam-se do pão da vida e do entendimento; e sua boa consciência e a confiança em Deus os mantêm contentes, alegres e satisfeitos. Vamos, pois, decide-te de uma vez, levanta-te e vai ao teu Pai.
Afetos
1. Resolução. — Não quero mais guardar os animais imundos dos vícios, culpas e pecados; não quero mais servir a um tirano tão cruel como Satanás, que, depois de me ter escravizado, envilecido e submetido a tantas misérias, me daria como prêmio a condenação eterna. Quero voltar para o meu Pai; agora reconheço o que perdi. Ai, meu Pai, como fui mau! Que imprudente! Eu Vos ofendi, que baixeza! Ofendi a mim mesmo; nada adiantei, nada ganhei, senão descrédito, desgostos, penas, trabalhos e a condenação.
2. Propósito. — Proponho, Senhor e meu Pai, voltar para Vós; bem sei que sou indigno de ser admitido como vosso filho, mas recebei-me ao menos entre os vossos servos. Já que deixei de ser vosso filho por meus caprichos e maldades, Vós não degenerastes; Vós sempre fostes e sois meu bom Pai, Vós me perdoareis. Sim, Vós, meu Pai, me admitireis; conheço bem vosso coração magnânimo e generoso; Vós me perdoareis.
Ponto 3
O filho pródigo põe em prática seu propósito. Imediatamente surgiriam dificuldades: teria que vencer certos respeitos humanos, teria que superar o que poderiam dizer os de sua casa, amigos, parentes e vizinhos. Não há dúvida de que ele mesmo diria: Ai, todos te olharão, todos falarão de ti, todos lembrarão o que antes eras, dizias e fazias, e agora, ao te verem assim, que dirão?
Mas ele, intrépido, vence e supera tudo, apresenta-se em sua casa. Seu pai o recebe com toda ternura, amor e alegria, e todos aqueles obstáculos e dificuldades, que antes se lhe apresentavam como insuperáveis, ele os vê desvanecidos como a fumaça.
Vamos, alma cristã, decide-te de uma vez; põe logo em prática o que tens projetado; vai, corre para teu Pai, não tenhas medo, não te deixes enganar por Satanás. Ele te apresentará obstáculos insuperáveis; pintará tua conversão como algo pouco menos que impossível; formará como que um muro impenetrável com o pensamento de que Deus não te perdoará pecados tão numerosos e tão graves; que o padre confessor, que está no lugar de Deus, não te admitirá; que te rejeitará bruscamente.
Satanás te dirá que já não há remédio para ti; que não podes abandonar o vício; que é impossível que te abstenhas para sempre daqueles gostos e prazeres; também te apresentará o que dirão os mundanos. Não dês crédito a Satanás: converte-te de verdade, faz uma boa confissão geral de todos os teus pecados, e verás que todas essas dificuldades se desvanecem como a fumaça.
O padre confessor te ouvirá com toda doçura e caridade; ele não se assusta nem se incomoda com os muitos e graves pecados do penitente. O que lhe causa dor, e uma dor muito grande, é ver que o pecador se apresenta indisposto e sem desejo de se converter. Isso, sim, amarga e aflige seu coração zeloso.
Mas, se vê que o pecador se apresenta com um coração contrito e humilhado, não pode nem sabe desprezá-lo; ao contrário, abraça-o, aperta-o contra seu peito e chora de ternura e amor; dá graças ao Senhor ao ver a grande misericórdia que derramou sobre aquele pecador, e admira seu valor e resolução em ter vencido a si mesmo, a Satanás e a todos os respeitos humanos.
Oh, que grande prazer! Oh, que gozo tão singular sente o pecador quando o padre confessor, ouvida a confissão, lhe dá a absolvição! Ele diz, em meio aos soluços de ternura, aquelas palavras de Santo Agostinho: "Mais doces me são estas lágrimas que derramo de dor por ter pecado do que todos os prazeres e divertimentos dos teatros e diversões mundanas." "Mais doces me são as lágrimas da penitência do que as alegrias dos teatros" Santo Agostinho
Oh, que transportes de alegria não sente seu coração ao se sentir revestido da graça santificante por meio do sacramento da Penitência! Mas sua alegria atinge o auge quando se vê admitido à mesa eucarística. Oh, que júbilo! Parece-lhe que toda a corte celestial vem celebrar sua festa em seu próprio coração.
Afetos
1. Resolução. — Já estou decidido: vou me confessar ainda hoje; não quero adiar mais. Direi todos os meus pecados ao padre confessor; espero alcançar o perdão de todos eles. Oh, meu Pai! Quanto me pesa ter pecado! Nunca mais, meu Pai, nunca mais voltarei a pecar, com o auxílio da vossa divina graça!
2. Súplica. — Ó Maria, minha Mãe amorosíssima, advogada dos pobres pecadores que desejam sinceramente se emendar, eu também quero mudar de vida de verdade. Quero fazer uma boa confissão e dizer todos os meus pecados sem esconder nada. Pelos vossos santíssimos sofrimentos, alcançai-me, ó Mãe das Dores, um arrependimento verdadeiro.
Ah, como me pesa, minha Mãe, ter pecado! Ter ofendido a Deus e a Vós! Ter, com os meus pecados, contribuído para crucificar novamente o vosso santíssimo Filho, Jesus!
Ó meu Jesus! A Vós me aproximo cheio de dor por ter pecado; estou confuso e envergonhado ao ver que eu, com meus pecados, Vos coloquei nessa cruz. Mas encontro alento ao lembrar que Vós, do alto da cruz, rogais até pelos mesmos que Vos crucificaram.
O vosso Sangue preciosíssimo não clama por vingança, como o de Abel, mas por piedade, clemência, perdão e misericórdia. Por isso, cheio de confiança, digo: tende piedade de mim, Senhor, porque pequei!
Alma de Cristo
Alma de Cristo, santificai-me.
Corpo de Cristo, salvai-me.
Sangue de Cristo, inebriai-me.
Água do lado de Cristo, lavai-me.
Paixão de Cristo, confortai-me.
Ó bom Jesus, ouvi-me.
Dentro de vossas chagas, escondei-me.
Não permitais que eu me separe de Vós.
Do inimigo maligno, defendei-me.
Na hora da minha morte, chamai-me.
E mandai-me ir para Vós,
para que Vos louve com os santos,
por infinitos séculos. Amém.
Pai-Nosso e Ave-Maria.
Conclusão da Meditação
Vos dou graças, meu Deus, pelos bons pensamentos, afetos e inspirações que me comunicastes nesta meditação.
Oferecimento
Vos ofereço os propósitos que nela formei e vos peço uma graça muito eficaz para colocá-los em prática. Para esse fim, suplico a Vós, Maria, minha Mãe, aos Anjos e Santos da minha devoção, que intercedais por mim e me alcanceis essa graça. Amém.