Todas as orações

Imitação de Cristo

Tomás de Kempis

Livro III - Da consolação interior

Capítulo 56 - Que devemos renunciar a nós mesmos e seguir a Cristo pela cruz

1. Jesus: Quanto mais saíres de ti mesmo, tanto mais poderás chegar-te a mim. Assim como o não desejar coisa alguma exterior produz paz interior, assim o desprendimento interior de si mesmo causa a união com Deus. Quero que aprendas a perfeita abnegação de ti mesmo, submetendo-te, sem resistência e sem queixa, à minha vontade. Segue-me, eu sou o caminho, a verdade e a vida (Jo 14,6). Sem caminho não se anda, sem verdade não se conhece, sem vida não se vive. Eu sou o caminho que deves seguir, a verdade que deves crer, a vida que deves esperar. Eu sou o caminho seguro, a verdade infalível, a vida interminável. Eu sou o caminho direito, a verdade suprema, a vida verdadeira, a vida ditosa, a vida incriada. Se perseverares no meu caminho, conhecerás a verdade, e a verdade te livrará (Jo 8,32), e alcançarás a vida eterna.

2. Se queres entrar na vida, guarda os mandamentos (Mt 19,17). Se queres conhecer a verdade, crê em mim. Se queres ser perfeito, vende tudo (Mt 19,21). Se queres ser meu discípulo, renuncia a ti mesmo. Se queres possuir a vida bem-aventurada, despreza a presente. Se queres ser exaltado no céu, humilha-te na terra. Se queres reinar comigo, carrega comigo a cruz, porque só os servos da cruz acham o caminho da bem-aventurança e da luz verdadeira.

3. A alma: Senhor, Jesus Cristo! porque vossa vida foi tão oprimida e desprezada no mundo, concedei-me o imitar-vos com o desprezo do mundo. Pois o servo não é maior que seu senhor, nem o discípulo mais do que o mestre (Mt 10,24). Trabalhe vosso servo por conformar-me à vossa vida, porque nela está a minha salvação e a verdadeira santidade. Tudo quanto fora dela leio ou ouço não me pode recrear ou deleitar plenamente.

4. Jesus: Filho, pois que sabes e lês todas estas coisas, bem-aventurado serás se as puseres em prática. Quem conhece os meus mandamentos e os guarda, esse é o que me ama; também eu o amarei e me manifestarei a ele (Jo 14,21), e o farei assentar comigo no reino de meu Pai.

5. A alma: Senhor Jesus! faça-se em mim segundo vossa palavra e promessa, e seja-me dado merecê-lo. Recebi a cruz, da vossa mão a recebi; hei de carregá-la, carregar até à morte, como vós ma impusestes. Na verdade, a vida do bom religioso é uma cruz, mas o conduz ao Paraíso. O começo está feito; não posso voltar atrás sem desistir.

6. Eia, irmãos! marchemos unidos, Jesus está conosco, por Jesus abraçamos a cruz, por Jesus queremos nela perseverar. Ele, que é nosso chefe e guia, será também nosso auxílio. Eis o nosso Rei, que marcha à nossa frente, Ele por nós combaterá. Varonilmente queremos segui-lo, ninguém se espante; estejamos prontos para morrer, com denodo, no combate, e não manchemos nossa glória, desertando da cruz.

Reflexões

Tomar tua cruz não quer dizer outra coisa senão tomar e aceitar todas as penas, contradições, aflições e mortificações que te sobrevirão nesta vida, sem nenhuma exceção, com submissão. Ao renunciar a nós mesmos, parece que ainda fazemos alguma coisa que nos contenta, porque somos nós mesmos que escolhemos nossas cruzes. Mas aqui trata-se de tomar a cruz assim como ela nos é imposta, indiferentemente. Portanto, há certamente muito mais dificuldade, porque não há escolha nossa. Por isso, este ponto é de uma perfeição muito maior do que o precedente. E Nosso Senhor nos mostrou bem que não precisamos escolher a cruz, mas que devemos tomá-la e carregá-la assim como ela nos é apresentada. Porque, quando ele quis morrer para nos resgatar e satisfazer à vontade de seu Pai, ele não quis escolher a dele, mas aceitou humildemente a cruz que os judeus lhe haviam preparado...

Esta palavra de Nosso Senhor, que nos ordena tomar a nossa cruz, deve ser entendida como aceitar de boa vontade todas as ordens às quais devemos obedecer e todas as mortificações e contradições que nos são impostas ou nos sobrevêm, indiferentemente, ainda que sejam leves e de pouca importância, certos de que o mérito da cruz não está em seu peso, mas na perfeição com a qual a levamos (Sermon pour le jour de saint Blaise, IV, 154 e 156)


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